"Quando o amor vos chamar, segui-o, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados; e quando ele vos envolver em suas asas, cedei-lhe, embora a espada oculta em sua plumagem possa feri-vos." Gibran Khalil Gibran
Por Mara Barrionuevo Faria
"Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla", disse o Pequeno Príncipe ao seu interlocutor, no meio de uma discussão sobre carneiros que comem plantas.
No livro O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry nos fala sobre a existência do amor perfeito, através dos cuidados que um garoto tem com a única e vaidosa flor de seu minúsculo planeta. Mas será que existe mesmo o amor perfeito?
A busca pelo par ideal permeia a vida dos seres humanos desde que o homem descobriu-se separado em dois sexos. Mesmo aqueles que rejeitam a possibilidade de se sentirem enamorados, de dividirem sua vida com outra pessoa, de serem pegos nas armadilhas do amor, terminam por se enredar, em algum momento, nos perfumados cabelos de Afrodite ou transformando-se em alvos das flechas do Cupido.
Os sintomas são normalmente os mesmos: frio na barriga, um coração que palpita, noites de insônia, sonhar acordado, suspiros e mais suspiros. Alguns, ainda na expectativa de saírem ilesos desse quadro, procuram o médico mais próximo. Afinal, quem sabe sejam apenas os sintomas de mais uma gripe!
A resistência em apaixonar-se é resultado do somatório de muitos fatores, dos individuais aos coletivos, passando pelas experiências com o relacionamento dos pais, pelas questões sociais – e muitas vezes religiosas – e pelo próprio karma individual. Mas, como essa resistência geralmente é vendida pelo encontro do outro que, normalmente, invade a nossa vida sem pedir licença e sem prévia autorização resta-nos tentar entender um pouco desse sentimento que é o responsável pela felicidade – e pela infelicidade – da grande maioria das pessoas.
Os Caminhos do Amor
Essa emoção, intitulada amor, se divide em duas áreas distintas: a paixão e o amor propriamente dito. A paixão é uma atração física, carnal, que pode surgir entre duas pessoas de sexo oposto ou do mesmo sexo. Tais relacionamentos são em geral intensos, física e emocionalmente. Mexem com neurônios e hormônios e muitas vezes com os campos auricos das pessoas envolvidas. Essa experiência que pode ser vivida como sonho ou pesadelo e que por vezes confundimos com amor, tende a ser arrebatadora, fictícia e temporária.
O amor tem como característica ser, acima de tudo, emocional, para depois instalar-se no plano físico. Amar plenamente, no contexto atual é, antes de mais nada, um exercício de afirmação de valores positivos sobre a carga negativa que faz parte da nossa realidade. Inclui, muitas vezes, abrir mão do eu para pensar em nós, descobrir e aceitar as opiniões e as imperfeições alheias e encontrar um outro modo de vida que nos permita dividir emoções, sentimentos, alegrais e dificuldades e, apesar de tudo, continuar amando.
Karma e almas gêmeas
Um relacionamento afetivo entre duas pessoas não acontece por mera obra do acaso. As leis da física, bem como as religiões e filosofias, nos ensinam que todas as ações possuem em si reações próprias regidas pela Lei da Causa e Efeito. Tal lei, que passaremos a chamar de karma, é a única forma lógica de explicarmos a ração das desordens e sofrimentos, das alegrias e prazeres que surgem em nossas vidas de modo aparentemente imprevisível. Esse é um dos lados da questão vida. O outro lado é a reencarnação e, juntos, podem nos dizer algo sobre o porquê de nos apaixonarmos pelo fulano ao invés de pelo sicrano, quando percebemos que notoriamente sicrano é mais bonito, mais inteligente, mais sensível e dará um marido ou uma esposa infinitamente melhor.
Somos levados pelo karma a entrar em contato com pessoas que conhecemos no passado. Com algumas delas temos dívidas, enquanto que outras estão endividadas conosco. Muitas vezes somos chamados a resgatar juntos uma parcela do karma – que não é necessariamente bom ou ruim – como trazer juntos uma alma ao mundo na forma de um filho, construir alguma coisa importante ou simplesmente resgatar um laço do passado que necessita de continuidade nessa vida, para que possa esgotar-se como amor entre homem e mulher. Além do mais, ser humano algum faz sozinho sua longa peregrinação, e as almas com as quais ele está ligado, por muitas vidas, vem juntar-se a ele no presente. A união cármica entre duas pessoas, no entanto, não significa exatamente que sejam elas almas gêmeas.
O conceito de alma gêmea faz parte de muitas escolas filosóficas e dos mitos de grandes religiões. Segundo o Zohar, Deus cria cada alma em duas partes, colocando uma metade num corpo masculino e a outra num corpo feminino para que, após o período no qual cada parte evolui separadamente, surja o amor e elas venham a juntar-se novamente. Platão dizia que cada pessoa é apenas metade de um ser, metade essa separada de sua totalidade. Atribuía ele ao amor a capacidade de restaurar o antigo estado de perfeição, juntando ambos num só.
Werner Schroeder, em seu livro Homem – Sua Origem, História e Destino, diz que, após a criação do que se pode compreender como Espírito Humano, ele precisa decidir se voluntariamente projeta o aspecto dual de sua Natureza Divina.
Muitas são as especulações, mas o que parece certo é que o encontro com a alma gêmea é muito raro. Quando acontece, não é uma relação passageira, mas uma experiência essencialmente espiritual, de modo que a sintonia e o reconhecimento não necessitam de meios físicos nem dependem de tempo ou espaço. A proximidade da alma gêmea produz uma ressonância à maneira de dois sons que vibram exatamente na mesma nota. Um grande amor pode acontecer entre duas pessoas por questões puramente cármicas e desse amor resultar uma união longa, feliz e duradoura. O que a diferencia da relação entre almas gêmeas é que, no segundo caso, os parceiros amam numa sintonia harmoniosa e criativa e que esse amor acontece nos planos e nos corpos mais elevados. Os chakras (centros energéticos) desses parceiros são ativados numa fusão de pura luz e se expandem na mesma energia. O objetivo maior do reencontro de almas gêmeas é a evolução espiritual de ambos, uma vez que esse encontro significa o resgate da unidade primordial.
Mas, mesmo não tendo como parceiro a alma gêmea, é necessário que os casais reconheçam que foram unidos porque existe uma missão a ser compartilhada nessa existência. Uma relação de amor servirá sempre de propulsora à nossa evolução, nos preparando para a compreensão do amor maior, que é o amor incondicional por todos os seres humanos, experimentado por aqueles que, pelo merecimento, se libertaram do karma de renascer.
Fonte: Jornal O Exotérico – junho/2001
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