Gerald Gardner
Nascido na cidade inglesa de Liverpool, em 1883, Gerald Gardner nutria um grande interesse pelo ocultismo, tendo integrado muitas das diversas ordens secretas que surgiam aos montes na Inglaterra dos fins do século XIX.
Entre elas, Gardner envolveu-se com a Maçonaria, a Ordem Rosa-Cruz, a Golden Dawn, a Ordo Templi Orientis (O.T.O.) e outras mais. Além disso, era membro da English Folklore Society (Sociedade Inglesa de Folclore). Como funcionário da Coroa Britânica, Gardner viajou pelo mundo a diversas nações submetidas ao controle do Império Britânico, passando longas temporadas na Índia e na Malásia, onde travou contato com muitas culturas diferentes e exóticas.
Aposentou-se cedo, e dedicou seu tempo livre a suas pesquisas sobre as muitas tradições ocultas que conhecera. Naturalmente, interessava-se também pelo passado de seu próprio povo, e devotava especial atenção às novas descobertas sobre a cultura Celta das Ilhas Britânicas.
No final da década de 40, lançou um livro chamado "High Magic's Aid" ("Com a Ajuda da Alta Magia"), um romance que ele posteriormente disse incluir elementos verdadeiros das práticas mágicas dos grupos de bruxos ingleses.
Ainda segundo Gardner, a divulgação desses segredos milenares teria sido autorizada pelos guardiões dessas antigas tradições. Posteriormente, em 1954 lança "Witchcraft Today" ("A Bruxaria Hoje"), onde surge pela primeira vez a palavra "Wica" - assim mesmo, com um único "c". Nesta obra, Gardner narra seu contato com um antigo grupo de bruxos ingleses, que transmitiam suas práticas em segredo geração após geração. Ele teria então sido iniciado por esse grupo secreto, e como bruxo passaria divulgar o que ele chama de "A
Arte".
Arte".
Ainda segundo Gardner, o conjunto de cerimônias e práticas religiosas da "Wica" estava registrado num livro muito antigo, conhecido como "Book of Shadows" - o "Livro das Sombras". Esse livro realmente existe, e consiste de um pesado volume de capa de couro sem inscrições, com textos escritos à mão e ricamente decorados. Pesquisas posteriores comprovam, porém, que a capa é muito mais antiga que as páginas internas, o que mostra que estas foram colocadas no local de um livro bastante antigo, do qual se aproveitou somente a capa. Os textos apresentam um inglês aparentemente "Elizabetano" - típico do século XVI, mas a existência de palavras desconhecidas naquela época (além de incongruências gramaticais) comprovam que na verdade não se
tratam de textos muito antigos, mas sim tentativas de fazê-los parecer velhos manuscritos. Segundo estes textos, as práticas ali descritas eram as verdadeiras tradições dos antigos Celtas da Grã-Bretanha, preservadas ao longo das gerações por destemidos guardiões dos Conhecimentos.
tratam de textos muito antigos, mas sim tentativas de fazê-los parecer velhos manuscritos. Segundo estes textos, as práticas ali descritas eram as verdadeiras tradições dos antigos Celtas da Grã-Bretanha, preservadas ao longo das gerações por destemidos guardiões dos Conhecimentos.
Isto fez com que muitas pessoas posteriormente associassem a Wicca à religião dos Celtas. Sem dúvida, muitos elementos das práticas wiccanas são inspirados nas tradições Celtas - a celebração de rituais sazonais, conhecida como a Roda do Ano, é um exemplo. O natural então seria que a palavra "wicca"(ou "wicca", no modelo original) fosse de origem Celta.
Curiosamente, não é. A explicação mais comum apresentada por autores wiccanos dá conta de que trata-se de um vocábulo do idioma saxão, que significa "dobrar, moldar" - representando a capacidade do bruxo em moldar e dobrar a natureza. Talvez. Talvez tenha origem em outros vocábulos Saxões, como Vitega, ou Wetekey, que significam algo como "profeta", "vidente".
A verdade é uma só: a Wicca, apresentada como a religião Celta, possui um nome saxão. As contradições não param por aí. Segundo o "Livro das Sombras" do próprio Gardner, os trabalhos mágicos wiccanos são dedicados a um deus e uma deusa, respectivamente Cernunnos e Aradia. Cernunnos é uma deidade amplamente conhecida dos Celtas, o que faz sentido. Aradia, porém, é uma obscura figura mitológica originalmente atribuída pelo mitólogo Charles Leland aos povos etruscos da Península Itálica - o que estaria fazendo Aradia nas tradições dos Celtas insulares? Seguramente, o trabalho de Leland também serviu de inspiração para Gardner, pois o poema conhecido como "The Charge of The Goddess"("A Carga da Deusa"), apresentado por Gardner, é uma adaptação da "Oração a Diana" publicada por Leland em 1896 em seu clássico livro "Aradia: Evangelho das Bruxas" (Editora Outras Palavras, 2000).
Quanto aos colegas de Gardner na Folklore Society, nenhum deles, por mais dedicados que fossem, jamais haviam ouvido sequer rumores da existência de um grupo de bruxos praticando antigas cerimônias no interior da Inglaterra.
Tudo isso por si só já põe a perder todo o trabalho de Gerald Gardner. Um exame mais criterioso do conteúdo, contudo, mostra uma rica pesquisa sobre as antigas tradições pagãs (pré-cristãs) européias - e um legítimo desejo de resgatá-las. Muito do que Gardner apresenta está contido em dois livros marcantes - ambos publicados na década de 20: "The Witch Cult in Europe" ("O Culto das Bruxas na Europa") de Margaret Murray, e "The White Goddess" ("A Deusa Branca"), de Robert Graves. Ambas as obras resgatam elementos de antigos cultos a uma deidade feminina (a Deusa) pelos povos da Antigüidade - em especial gregos, romanos e celtas.
Aparentemente, Gardner viu muito sentido naquilo, e quis resgatar essas tradições na forma de um "novo velho caminho". Pesquisas posteriores comprovaram que Margaret Murray, apesar de não estar completamente certa, estava na trilha certa quanto à existência de um culto ao Feminino em eras antigas - o trabalho de pesquisadores como Marija Gimbutas e Anne Baring em tempos mais recentes comprova isso.
Fica então a pergunta: teria Gardner sido um grande impostor, ou será que ele tinha uma "missão" - resgatar, ainda que através de mentiras, as tradições pagãs pré-cristãs da Europa? Duas coisas são certas:
a) Por um lado, Gardner sem dúvida forjou muitos elementos do que veio a ser conhecido como Wicca. Já vimos acima que diversas informações apresentadas por Gardner haviam sido "emprestadas" de outros autores, como Leland, Murray e Graves - além do renomado ocultista Aleister Crowley, com quem teve intenso contato. As práticas mágicas por ele descritas, envolvendo círculos mágicos, espadas rituais e evocação dos Quatro Elementos, têm origem em práticas comuns na Maçonaria e na Alta Magia - e dificilmente representariam elementos da cultura Celta.
A Antigüidade que Gardner pretendia atribuir à Wicca era sem dúvida fruto de sua fértil imaginação, e os ritos de seu Livro das Sombras", ricos em elementos sadomasoquistas (chibatadas, mãos e pés amarradas e sujeição eram práticas comuns - sem mencionar o "Grande Rito, a união sexual do Sacerdote com a Sacerdotisa representando o deus e a deusa) tornam visíveis o experimentalismo sexual marcante de seu idealizador e mais uma vez assinalam a influência recebida diretamente de Aleister Crowley.
Sem dúvida, existem muitos elementos que por si só bastariam para que a Wicca caísse no esquecimento, ou fosse lembrada apenas como mais uma das muitas "tradições misteriosas" falsamente resgatadas na virada do século XIX para o XX. Uma coisa, porém, é inegável: a Wicca apresentou uma nova realidade, inspirada em valores ancestrais.
b) O resgate da igualdade entre os sexos, a integração com os ritmos da Natureza através da celebração dos festivais sazonais da Roda do Ano, a liberdade aliada à responsabilidade expressa pela única lei wiccana ("Se mal nenhum causar, faz o que desejar") são elementos muito positivos trazidos pela tradição da Wicca, os quais ganham imediata ressonância uma década depois, nos anos sessenta, através do movimento feminista, da conscientização ecológica e da revolução sexual. A Wicca foi aparentemente criada sob encomenda para a década de 60.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
não ouvi...