Vampiro : Caça Vampiro
As 11 horas da noite do dia 31 de outubro (Hallowen) de 1968, William Dakin, um rapaz de 24 aos, encarregado de cuidar do cemitério de Tottenham (Norte de Londres) fechou, como de costume, os pesados portões de ferro. Pouco depois da meia-noite, o cemitério foi invadido por pessoas que desenharam círculos e flechas no chão do pátio, com flores murchas. Em seguida, desenterraram o caixão de uma criança e despedaçaram o de um adulto. Então, atravessaram o peito de um terceiro cadáver, que fora desenterrado, com uma estaca de ferro, em forma de cruz. Depois sumiram silenciosamente. No dia seguinte, quando a violação foi descoberta, esse fato foi noticiado nos jornais, etc e várias pessoas tentaram explica-lo. O reverendo Lionel Phillips, por exemplo, declarou que "tudo foi cuidadosamente preparado de acordo com algum ritual demoníaco" e um ocultista londrino, dedicado à magia branca, opinou que "parece óbvio que eles fizeram ali um ato de necromancia. E parece que tinham os mais sérios propósitos de seguir os rituais completa e absolutamente. Mas com certeza estavam apavorados e com pressa, pois mal atravessaram o cadáver com a estaca. Eles podiam estar muito sérios, realmente; mas, não restam dúvidas de que eram também amadores".
Foto tirada do local do incidente
Entretanto creio que se trata de uma antiga forma de destruir vampiros. O esquartejamento é bem conhecido e, apesar de quase não figurar na ficção, na realidade chegou a ser tão popular quanto à estaca ou a cremação.
O fato de terem desenterrado uma criança também não é novidade, pois, afinal de contas nas tradições antigas, elas não eram imunes à vampirização e sempre que uma era suspeita - mesmo que fosse um simples bebê - o corpo era exumado e destruído como um adulto, sem qualquer consideração especial pela sua idade. (vimos que até mesmo no famoso caso de Arnold Paole, desenterram crianças para averiguar se elas apresentam sinais de vampirismo). Contudo, a principal evidência de que poderia tratar-se de uma "execução de vampiro" por alguém que tinha um bom conhecimento das tradições antigas, vem do terceiro corpo. Segundo o pesquisador Hill Douglas, algumas vezes usava-se um punhal consagrado, em forma de crucifixo, como nas tradições albanesas no lugar da estaca.
Outra foto do local
É claro que existe também a possibilidade de vandalismo - brincadeiras de mau gosto de alguns jovens - muitíssimo comum nos EUA e Inglaterra nos dias de Hallowen.
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Vampiros na Índia e Tibet
Bebedores de sangue
Segundo A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, quando o demônio Hiranyakasipu viu Krsna, viu-O como a morte personificada, mas o devoto Prahlada O viu sob Sua forma pessoal, como o seu Senhor querido. Aqueles que desafiam Deus irão vê-lo sob Seu aspecto horroroso, mas aqueles que se dedicam a Ele, irão vê-lo sob Sua forma pessoal.[9]
Segundo A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, quando o demônio Hiranyakasipu viu Krsna, viu-O como a morte personificada, mas o devoto Prahlada O viu sob Sua forma pessoal, como o seu Senhor querido. Aqueles que desafiam Deus irão vê-lo sob Seu aspecto horroroso, mas aqueles que se dedicam a Ele, irão vê-lo sob Sua forma pessoal.[9]
A sede de sangue é uma constante entre os diversos caracteres do folclore da Índia e Tibet, o que leva os pesquisadores ocidentais a catalogar uma infinidade de vampiros. Na abalizada enciclopédia de Matthew Bunson consta que o termo bhuta tem sido usado para descrever todas as formas de vampiros indianos, entretanto muitos folcloristas referem-se a este como um tipo específico de vampiro. Outros tipos incluem rakshasa, jigarkhwar, hanh saburo, hant-pare, hantu-dor dong, mah’anah, pacu-pati, penanggalan, pisacha, e vetala.[1] Praticamente todas as entidades relacionadas à morte apreciam sangue e carne humana. O próprio deus da morte, Yama, está entre eles.
Segundo o Bardo Thödul, após a morte, se você mentir no estado de Chönyid o Senhor da Morte colocará uma corda em volta do teu pescoço e te puxará adiante; ele cortará a tua cabeça, extrairá teu coração e arrancará teus intestinos, devorará teu cérebro, beberá teu sangue, comerá tua carne e roerá teus ossos.[2] Yama é antecedido por pelos 28 detentores do poder e pelas 58 deusas sinistras bebedoras de sangue. Crendo nelas, pode-se ver tais entidades:
Os pesquisadores Osis e Haraldsson relataram o caso de um policial hindu, na casa dos 40 anos, que sofria de tuberculose pulmonar. De sua cama no hospital, ele gritava: O Yamdoot (mensageiro da morte) está vindo para me levar. Tirem-me desta cama para que o Yamdoot não me encontre. Apontando para a janela, ele disse: Lá está ele. Naquele momento, como se alguém tivesse disparado um tiro, um bando de corvos em cima de uma árvore, vista da janela, voou em disparada. A enfermeira ficou aterrorizada e correu para fora, mas não viu nenhum motivo para aquele tumulto, concluindo que até os corvos pressentiram algo terrível. Alguns minutos após essa experiência negativa, o paciente entrou em coma profundo e morreu.[3]
A dieta hematófaga é tão genérica que, em 1956, Idries Shah descreveu a mitificação de um caso ordinário de distúrbio mental. Segundo seu testemunho, circularam na Índia muitas lendas sobre uma certa vampira inglesa que dizem comer carne crua e beber sangue humano sempre que possível. Tratava-se de uma viúva que vivia em Bombaim. Certo dia houve um acidente na estrada e circulou a história de que a sra. W. tinha sugado o sangue de uma das vítimas do acidente. Ela morreu alguns meses depois e assim a lenda continuou e cresceu. Shah encontrou uma amiga da mulher, que explicou o incidente:
Quando circulava o rumor de que era vampira contado por algum dos sobreviventes do acidente e não por mim ela me procurou para confessar que ia voltar à Inglaterra para tratamento. Perguntei-lhe se ela era vampira e ela disse que não. A verdade é que, quando criança, ela tinha sofrido de uma doença e tinha de comer sanduíches de carne crua. Ela se acostumou tanto com isso que nunca comia carne cozida. Seu médico via isso como um estado psicológico mais ou menos inofensivo. E assim continuou ela com a dieta. Ao ir para a Índia, ela descobriu que era difícil conseguir carne crua, apesar de sentir muita vontade e, finalmente, ela conseguiu arranjar fornecedor. Mas ela se controlava, tanto quanto possível. Na noite do acidente, ela me contou que não comia carne crua há semanas e que, ao se curvar sobre um ferido, aquilo foi demais para ela e então encostou seu rosto no dele como para beija-lo. Um indiano que estava presente, conhecendo talvez o seu gosto por carne sangrenta, deu início aos rumores.[4]
Nas eras védicas pelo ano 1200, atingindo inclusive a Idade Média a prática de sacrifício de sangue era comum, na Índia. As primeiras escrituras sagradas, Vedas e Brahmanas, são, de fato, um manual de sacrifícios de grande complexidade.[5] Atualmente, nos templos hindus, o sacrifício toma formas inócuas: A oferta é de alimentos, comidas, flores e pós coloridos, embora ainda haja sacrifícios de sangue em alguns templos da deusa Kali. Os altares de sacrifício desapareceram e as oferendas são simplesmente depositadas aos pés da imagem.[6]
Guaita anotou que, no século 19, havia uma ‘imensa sociedade secreta’ envolvendo toda a Índia, cujos adeptos chamavam-se Thuggs. Tinham a existência devotada ao culto de Kali, expatriando-se quando necessários para atacar as vítimas, marcadas de antemão e que, prevenidas a tempo para tomar um navio, pretendem escapar a seu mau destino.[7] Após, cita o testemunho anotado por Christian das últimas palavras de Durga, um famoso chefe thugg, que a polícia inglesa conseguiu apanhar e condenar a forca:
Nossos irmãos, dizia o thugg a seus juízes souberam que o estrangeiro de que vocês estão falando deveria partir com uma escolta de 50 homens. Formamos simplesmente uma tropa três vezes maior para espera-los na floresta, onde havia justamente uma imagem da deusa Khali. Como não é permitido por nossos sacerdotes entrar em combate, porque nossos sacrifícios só são agradáveis a Khali quando as vítimas são surpreendidas pela morte, demos boa acolhida aos viajantes oferecendo para caminhar juntos e preservar-nos mutuamente de qualquer perigo. Eles aceitaram, sem desconfiança; depois de três dias éramos amigos... Cada estrangeiro marchava com dois thuggs. A noite não estava completamente escura: à luz do crepúsculo estrelado, dei o sinal a meus irmãos. Imediatamente um dos thuggs que guardava cada vítima pôs no seu pescoço o laço corredio, enquanto o outro o puxava pelas pernas, para virar. Esse movimento foi executado em cada grupo com a rapidez do relâmpago. Arrastamos os cadáveres para o leito de um rio próximo, depois dispersamos. Só um homem escapou; mas a deusa Khali tem olhos abertos sobre ele: seu destino se cumprirá cedo ou tarde! Quanto a mim, eu era antes uma pérola no fundo do oceano, hoje sou cativo. A pobre pérola está acorrentada: receberá um furo para ser posta num fio e flutuará miseravelmente entre o céu e a terra. Assim quis a grande Khali para punir-me por não lhe ter oferecido o número de cadáveres que lhe pertencia. Ó deusa negra, vossas promessas não são jamais vãs, vós cujo nome favorito é Koun-Khali (a devoradora de homens), vós que bebeis sem cessar o sangue dos demônios e dos mortais.[8]
Segundo Gordon Melton, Kali apareceu pela primeira vez nos escritos indianos por volta do século 6 em invocações pedindo sua ajuda nas guerras. Nesses primeiros textos foi descrita como tento presas, usando uma guirlanda de cadáveres e morando no local de cremações. Diversos séculos mais tarde, no Bhagavat-purana, ela e seus seguidores, os dakinis, avançaram sobre um bando de ladrões, decapitaram-nos, embebederam-se em seu sangue e divertiram-se num jogo de atirar suas cabeças de um lado para o outro. Outros escritos registram que seus templos deveriam ser construídos longe das vilas e perto dos locais de cremação. Kali fez sua aparição mais famosa no Devi-Mahatmya, onde se juntou à deusa Durga, para lutar contra o espírito demoníaco Raktabija, que tinha a habilidade de se reproduzir com cada gota de sangue derramado; assim, ao lutar contra ele, Durga se viu sobrepujada pelos clones de Raktabija. Kali resgatou Durga ao vampirizar Raktabija e ao comer suas duplicatas. Kali foi vista por alguns como o aspecto irado de Durga. Kali também apareceu como uma consorte do deus Siva. Engajaram-se numa dança feroz. Pictoricamente Kali geralmente era vista sobre o corpo inclinado de Siva numa posição dominante enquanto se engajava em relações sexuais.
Contos do Vampiro
Na Índia os que buscam relatos de experiências objetivas sobre o retorno dos mortos facilmente encontrarão, pois diversos santos e devotos indianos, como Sri Chaitanya Mahaprabhu (nascido em Mayapur, India, 1486), morreram voluntariamente e voltaram a vida. Um dos casos bem divulgados mais recentes foi o de Sai Baba, que teria avisado a seu discípulo Mahalsapathy: Vou para Alá. Tome conta de meu corpo por três dias. Talvez retorne. Se não, enterre-o por aqui e coloque duas marcas no lugar”. Sua respiração diminuiu até cessar e sua circulação se interrompeu. Dado como morto, as autoridades tentaram fazer Mahalsapathy cumprir uma lei da Índia que obriga a cremação ou enterro dos corpos em 24 horas após a morte, mas ele se recusou. No terceiro dia a respiração retornou, Sai Baba abriu os olhos e voltou à vida.
Tal privilégio não deve ser legado ao homem comum. Os santos retornam para o benefício da humanidade, mas o vulgo tenta reverter o fado por motivos egoístas:
Verás tua própria casa, os criados, parentes e o [teu] cadáver, e pensarás: Agora estou morto! Que farei?; e, oprimido por intenso pesar, este pensamento te ocorrerá: Oh, daria tudo para possuir um corpo! E assim pensando, vagarás de um lado para outro procurando um corpo.
Bardo Thödul
Segundo W. Y. Evans-Wentz, os tibetanos fazem objeção ao enterro, pois acreditam que, quando um cadáver é enterrado, o espírito do morto, vendo isso, tenta reentrar nele, e que, se a tentativa for bem-sucedida, origina-se um vampiro, enquanto que a cremação ou outros métodos de dissipar rapidamente os elementos do corpo morto impedem o vampirismo.[10] O folclore admite variações como, por exemplo, trocar de corpo. Assim, num dos contos de Somadeva, um yogi abandonando seu corpo idoso e entra no cadáver de um jovem morto.
O folclore da Índia e Tibet, bem como a literatura devocional, falam de um ser denominado pelo termo sânscrito Vetala, posteriormente traduzido para o tibetano como Baital. Isabel Burton o define como um gigantesco morcego, vampiro ou espírito maligno que habitava e animava cadáveres.[11] Diz respeito a uma espécie de ‘espírito’ que freqüenta os smashana (cemitério crematório), adentra e anima cadáveres ainda intactos. De acordo com Louis Renou, os vetalas aparecem na literatura desde o Harivamsa; fazem parte da decoração semidemoníaca do tantrismo sivaíta, de onde passaram ao tantrismo budista.[12] Sua aparição mais famosa deu-se na coletânea Vetalapancavimsatika, que constitui um episódio do Katha-saritsagara, composto entre 1063 e 1081.[13] A sessão dos Contos do Vampiro tornou-se conhecida como Baital-Pachisi, no Tibet.[14]
No Vetalapancavimsatika de Somadeva, brâmane natural de Cachemir que viveu na segunda metade do século XI, o vetala recebe os títulos de mestre em Ioga, príncipe dos vampiros, mestre dos poderes sobrenaturais, etc.[15] Sua posição social parece diametralmente oposta a de seu correspondente no Baital-Pachisi, onde o espírito do filho de um oleiro reentra em seu próprio corpo após para ajudar o rei Vikram e o jovem príncipe Dharma Dhwaj a fazerem justiça contra seu malfeitor. No processo o cadáver sofre horrenda metamorfose:
Seus olhos, que estavam arregalados, eram de um castanho esverdeado e nunca piscavam. Seus cabelos também eram castanhos e castanho era seu rosto[16] três matizes diferentes que, não obstante, aproximavam-se um do outro de forma desagradável, como em um coco seco. Tinha o corpo magro e cheio de nervuras como um esqueleto ou um bambu e, estando pendurado de um galho como uma ‘raposa voadora’,[17] pela ponta dos dedos, seus músculos contraídos ressaltavam como se fossem cordas de fibra de coco. Não parecia ter uma gota de sangue, ou este estranho líquido devia ter-se escoado todo para a cabeça, e quando o rajá tocou-lhe a pele, sentiu-a fria como o gelo e viscosa como a de uma serpente. O único sinal de vida era o furioso agitar de uma pequena cauda muito semelhante à de um bode.[18]
Segundo a tradição, o vetala pode ser controlado por aqueles que alcançam a Vetala Siddhi (poder sobre os vetalas). Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891) teria definido esta técnica yogi como uma prática de feitiçaria que pretende possuir meios de alcançar poder sobre os vivos através de magia negra, encantamentos e cerimônias executadas sobre um corpo humano morto, durante cuja operação o cadáver é profanado.[19] Porém, sua interpretação está impregnada com uma boa carga de preconceito. No Katha-saritsagara tal dom pode ser usado para causas justas como, por exemplo, quando antigamente, o rei Trivikramasena, de gloriosa memória, obteve a soberania sobre os Vidyadharas graças a um Vetala.[20]
Diversas fontes ainda preservam detalhes da ritualística correlata. A cerimônia foi concebida como assessória a uma forma extinta de culto localizado no tempo e no espaço. Numa época em que a pena de morte por enforcamento era comum e os altares de sacrifício ainda não haviam desaparecido, haveria um templo branco de Kali (Gauri) propositalmente construído próximo a um smashana (cemitério crematório), nas margens do rio Godavari. A adaptação do Baital-Pachisi, pelo sábio Bhavabhuti, especifica que o rito era levado a cabo necessariamente durante a noite de segunda-feira, no décimo quarto dia da metade escura do mês de bhadra (agosto). Nesta data o devoto deveria obter o defunto fresco de um enforcado, usado para conjurar e prestar homenagem ao vampiro, no sítio do smashana. Uma vez incorporado, o baital serve-lhe de guia até o templo onde o oficiante oferece um sacrifício humano no altar de Kali.[21] A vítima da imolação deve, então, posicionar-se numa ashtanga, a mais cerimoniosa das cinco formas de saudação hindu, prostrando as oito partes do corpo (têmporas, nariz, queixo, joelhos e mãos) tocando o solo.[22]
Morte e ressurreição
Os homens de má fé, tradicionalmente representados como figuras sujas, pertencentes a castas inferiores e de aparência horrenda, optam por oferecer a vida alheia. Mas a pretensa vítima inocente poderá inverter os papeis e sacrificar seu algoz, tal como teria feito o semi-histórico chátria Vikramaditya ou Vikramarka, rei de Ujjayani.[23] No que parece vestígio de um rito padrão, o bom devoto opta pelo auto-sacrifício. A tradição os associa com castas superiores de modos assépticos. Por exemplo, um conto indiano de data incerta descreve que àquela noite o rei acordou, lavou-se no poço sagrado e limpou-se como para uma prece.[24] A seguir foi no crematório procurar seu guia numa árvore onde penderia um enforcado. Encontrou o vulto de uma mulher assustadora:
Ela estava sugando com um ruído baboso, com pequenos soluços e gemidos de prazer, como um bebê mamando no peito da mãe. Mas é natural um bebê sugando o leite enquanto aquilo era uma dakini, sugando o sangue do cadáver de um jovem.[25]
A dakini (bruxa) substitui o vetala e faz seu serviço, conduzindo o rei ao templo. Numa animação alegórica, a estátua de Kali ganha vida: Ela enfiou seus dentes no coração dele e bebeu profundamente de seu sangue. Ela sugou e engoliu até que sua face e suas mãos ficaram ensangüentadas e suas roupas manchadas.[26] As dakinis, servas da deusa, cozeram o rei sacrificado e participaram do fim do banquete, consumindo a prasadam (a comida oferecida). Quando o esqueleto encontrou-se limpo e polido a deusa o ressuscitou: A própria Kali pegou uma ânfora com um líquido dourado e espargiu-o sobre os ossos. Alguns músculos e cartilagens começaram a surgir sobre o esqueleto. Então ela jogou mais líquido e ele começou a criar carne, até que a carne cresceu de volta ao normal e as veias e os vasos sangüíneos embutidos nele começaram a inchar com um pouco de sangue.[27] Está subtendido que uma ressurreição análoga foi levada a cabo na versão onde Somadeva escreveu que o ministro Vikramakesarin, separado de seu rei Mrgânkadatta por efeito de uma maldição, recebeu de um velho brâmane um encantamento que lhe assegurará o domínio sobre a raça dos Vampiros.[28] Seguindo o conselho do brâmane, o ministro aceita o encantamento, conjura um Vampiro a entrar num cadáver humano, capta as simpatias dele dando-lhe de comer sua própria carne e pede-lhe, como favor, que o ajude a achar Mrgânkadatta. O Vampiro consente, e vê-se Vikramakesarin cavalgando o cadáver dentro do qual está o Vampiro, percorrendo os ares nesta montaria para encontrar-se milagrosamente aos pés do rei.[29]
Como recompensa o oficiante vê concedido um ou mais desejos. Podem ser bagatelas, como sacos de ouro para distribuir aos pobres, ou concessões superiores, de cunho divino. Como recompensa pela morte de Ksatisila, Somadeva faz o deus Siva presentear o rei com a espada que se chama Invencível através da qual submeteria a sua vontade a terra com suas ilhas e seus domínios infernais e se tornaria soberano dos Espíritos aéreos.[30] No Baital-Pachisi, de Bhavabhuti, o deus Indra ordena a Vikram que faça um pedido. Séculos de inalterável popularidade nacional e difusão internacional proporcionada pela clássica tradução de Richard Burton são provas literais da concretização de seu humilde desejo: Ó poderoso soberano do mais baixo paraíso, que esta minha história se torne famosa através do mundo![31]
Notas:
[1] Bunson, Matthew. The Vampire Encyclopedia. New York, Three Rivers Press, 1993, p 133.
[2] Evans-Wentz, W. Y. (org.) O Livro Tibetano dos Mortos. São Paulo, 1994. Pensamento, p 127.
[3] Habermas, Gary R. e Moreland, J. P. Immortality: the other side of death. Nashville, 1992. Thomas Nelson Publishers, p 41. In: Rawlings, Dr. Maurice S. Eles Viram o Inferno. São Paulo, 1996. Multiletra, p 113.
[4] Shah, Idries. Magia Oriental. São Paulo, 1973. Editora Três, p 155-156.
[5] Os Sacrifícios. Obra citada, p 291.
[6] Os Sacrifícios. Obra citada, p 291.
[7] Stanislas, Guaita. O Templo de Satã. Vol I. São Paulo, 1973. Editora Três, p 28.
[8] Christian. Histoire de la Magie. Paris, Furne & Cia., p 39-40. In: Stanislas, Guaita. O Templo de Satã. Vol I. São Paulo, 1973. Editora Três, p 28-29.
[9] Prabhupada, A. C. Bhaktivedanta Swami. Pequeno Tratado Sobre Karma. Brasil, Fundação Bhaktivedanta, 1998, p 57.
[10] Evans-Wentz, W. Y. O Livro Tibetano dos Mortos. São Paulo, 1994. Pensamento, p 18.
[11] Burton, Isabel. Prefácio à edição comemorativa. In: Burton, Richard Francis. Vikram e o Vampiro. São Paulo. Círculo do Livro, p. 7.
[12] Anônimo. Contos do Vampiro. São Paulo, Martins Fontes, 1986, p. 186.
[13] Esta compilação é uma adaptação livre de uma obra anterior, provavelmente do século III, chamada Brhat-katha (A Grande História), atribuída a um certo Gunâdhya que viveu na região entre o Ujjayinî e o Kausâmbî. Esse último texto, hoje perdido, foi escrito em paisâcî, a língua dos demônios, dialeto meio-hindu derivado do sânscrito. Quando a tradição sânscrita se impôs, reduzindo os dialetos regionais a um papel secundário, o Brhat-kata tornou-se o primeiro objetivo de tradutores e adaptadores. Em conseqüência, a Vetalapancavimsatika tornou-se uma das mais famosas compilações de narrativas da Índia Antiga (aparentemente, nenhuma das traduções ou adaptações que se conservam é anterior ao século XI).
[14] Entre a versão tibetana de Bhavabhuti e a indiana de Somadeva há mudança de personagens. O herói de Bhavabhuti é Vrikam, enquanto o de Somadeva é seu descendente Trivikramasena. Ao contrário de Vrikan que repreendia e batia no baital todo o tempo, aborrecido pelas histórias pornográficas e degradantes que despertavam a atenção de seu filho, Trivikramasena viajava só e fez com o vêtala um voto de silêncio. O vampiro é invariavelmente falante. Ele conta histórias e faz perguntas enquanto o rei o carrega. Quando o rei respondia suas perguntas quebrava o voto de silêncio e, conseqüentemente, o vampiro escapulia e retornava a seu refúgio na árvore simsapâ, graças à sua força mágica ou poderes mágicos. Todas as vezes o rei volta a captura-lo que ora deixava-se levar passivamente caído na terra, gemendo e ora relutava assumindo as formas mais variadas. Foram ao todo 23 fugas. Na vigésima Quarta prova o rei não soube responder a questão e permaneceu silencioso. Então, o Vampiro cumprimentou-o pela coragem, revelou que o monge mendigo Ksâtisîla/Shanta-Shil tinha maus propósitos a seu respeito e ensinou-o como vencer o inimigo.
[15] Somadeva. Obra citada, p. 13, 135.
[16] Os hindus atribuem cabelos castanhos aos homens de casta inferior, às feiticeiras e aos demônios.
[17] Nome popular anglo-indiano de uma espécie de morcego grande.
[18] Burton, Richard Francis. Obra citada, p 48-49.
[19] Blavatsky, Helena P. Glossário Teosófico. Trd. Silvia Sarzana. São Paulo, Ground, 1998, p 738.
[20] Renou, Louis. In: Anônimo. Contos do Vampiro. São Paulo, 1986. Martins Fontes, p. X.
[21] Aparentemente este cadáver deveria ter sido executado por agentes da lei em causa justa. O devoto não poderia levantar falsa acusação contra um inocente para enganar a justiça e leva-la a fornecer indiretamente o corpo do qual necessita, do contrário o vetala/baital frustraria seus planos.
[22] Anônimo. Obra citada, p. 179-180.
[23] Vikrama significa valor, bravura.
[24] Anônimo. Vikram e a Dakini. In: Husain, Shahrukh (comp). O Livro das Bruxas. Trd. ???? Rio de Janeiro, Objetiva, 1995, p. 221.
[25] Anônimo. Vikram e a Dakini. In: Husain, Shahrukh (comp). O Livro das Bruxas. Trd. ???? Rio de Janeiro, Objetiva, 1995, p. 221.
[26] Anônimo. Vikram e o Dakini. Obra citada, p. 222.
[27] Anônimo. Vikram e o Dakini. Obra citada, p. 223.
[28] Renou, Louis. Obra citada, p. X.
[29] Renou, Louis. Obra citada. p. XI.
[30] Anônimo. Obra citada, p 183.
[31] Burton, Richard Francis. Obra citada, 223.
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