Sephirot
A compreensão de todo o sistema preconizado pela Qabalah, quando já dividido e categorizado, parece simples e bem definido com suas manifestações já sedimentadas e absolutizadas.
Na verdade ele não é. A fragmentação das manifestações é apenas um artifício usado para melhor compreensão e aplicabilidade do sistema. A Qabalah é um sistema contínuo, interdependente, fluído e indivisível. Nenhuma Sephirot ou atributo existe por si só, mas apenas como um reflexo e receptáculo de uma complexa gama de reações em cadeia de diferentes vibrações e gêneros ressonando como uma manifestação do todo e do nada, em princípios opostos equilibrados pela sua síntese.
A especialização das esferas (Sephirot) nada mais é do que o reflexo dos diferentes níveis de consciência e manifestação desta nos planos do real. Esta noção é fundamental no sentido de fazer o leitor a perceber a ilusão de todo o sistema. Ele não é absoluto, mas sim um mero alfabeto que auxilia o magista na hora de ministrar e interpretar suas experiências. Qualquer coisa pode ser relacionada neste alfabeto e as esferas podem ser preenchidas ao gosto do operador, levando em consideração apenas sua natureza intrínseca. Este é o grande diferencial entre a Qabalah Hermética e a Judaica. Enquanto a primeira é um sistema inter-relacionável pragmático onde tudo pode ser sincretizado com tudo, a Judaica é dogmática no sentido de encarar as esferas como manifestações de Deus próprias e não correspondentes às outras culturas e panteões.
Como estudo nada mais é do que método, e como toda esta complexidade já foi organizada para nossa facilidade, começaremos agora a detalhar e esclarecer cada nível e esfera da Árvore da Vida.
Ain Soph Aur (O Nada)
Antes da primeira manifestação de existência (Kether, a primeira esfera) existe um conceito extremamente abstrato cuja compreensão não pode ser delimitada exclusivamente à elucubração racional. É a não-existência, o não ser que antecede a toda a Criação, o caos imanente de onde se auto-gerou o primeiro princípio. Ele é chamado de Ain (nada), Ain Soph (sem limite), Ain Soph Aur (luz sem limite). Não podemos esperar de início compreender sua vastidão de não existência brincando com palavras, podemos apenas esperar captar um leve e breve vislumbre do que ele seria, para que isto se desenvolva conosco até nosso crescimento de consciência pleno. Como a própria Bíblia diz: "No começo, não havia nada".
Nisto é que está o véu do não ser, o Nada Absoluto que se densificou num ponto mínimo e imensurável de contração gerando a primeira explosão da manifestação que é a Coroa (Kether). É como se houvesse uma relação sexual entre o Nada-Totalidade ("feminino") com o Nada-Indivisibilidade ("masculino"), gerando o "Um" perfeito e resumitivo de todo o processo. Recorramos à matemática para auxílio: 0º=1; sendo 0 = (...-3, -2, -1) + (+1, +2, +3...). O zero, portanto, pode ser entendido como a totalidade, já que é a soma do infinito positivo com o infinito negativo. É como se houvesse o processo inverso do de criação de um buraco negro, sendo este último o acesso para o retorno às origens do universo (lembrando sempre que o significado da palavra "religião" é religar-se).
Crowley identificou em seu panteão duas "deidades" relativas ao Ain Soph Aur: Nuit e Hadit. Nuit, a Grande Deusa do Céu Noturno que curva seus membros abraçando toda a Terra, que é representada pela noite estrelada, seria o Nada-Totalidade, a Noite de Pan. Hadit, seu parceiro, representado pelo Globo Solar Vermelho e Alado, seria o Nada-Indivisibilidade, a estrela interior de cada ser humano indestrutível e pessoal. Parafraseando o Livro da Lei: "Todo homem e toda mulher é uma estrela (Hadit)" no céu azul noturno de Nuit.
Porém, quanto mais falarmos sobre este tema, mais complicado e difícil ele se tornará. Cabe aqui apenas o conselho da meditação para que tenhamos uma "noção" inicial do que isto poderia ser.
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