O Breviário de Nicolau Flamel
Que seja feito em nome de Deus, Amém. O primeiro passo na Sabedoria é o temor a Deus.
Prefácio - Teoria
Eu Nicolau Flamel, Escrivão de Paris, neste ano de 1414, do reinado do nosso bendito príncipe Carlos VI, que Deus abençoou, e após a morte da minha fiel companheira Perrenelle, recordando-me dela, me tomei de fantasia e de satisfação para escrever em teu favor, caro sobrinho, toda a maestria do segredo do Pó de Projeção ou Tintura Filosofal, que aprouve a Deus dispensar a seu insignificante servidor, que eu fiz como tu farás se procederes como te direi. Segue, portanto, com engenho e entendimento os discursos dos Filósofos acerca do segredo, mas não tomes os seus escritos à letra, porque ainda que possam ser entendidos segundo a Natureza, não te seriam úteis. Por isso, não te esqueças de rogar a Deus que te dispense entendimento de razão, de verdade e natureza, para que vejas neste livro, em que está escrito o segredo palavra a palavra e página a página, como fiz e trabalhei com a tua querida tia Perrenelle, que recordo tão intensamente. Assim, coloquei a mestria neste livro, a fim de que não te esqueças do grande bem que Deus te concede e para que te favoreça. Isto para que não deixes, em sua lembrança, de lhe cantar e salmodiar teus louvores. E nada pode ser mais adequado para celebrar tão bom acontecimento do que cânticos exaltados. Assim, escrevi este livro pela minha própria mão, e que havia destinado à igreja Saint-Jacques, estando na dita paróquia, depois de encontrar o livro do Judeu Abraham, não quis vender este por dinheiro e guardei-o com muito cuidado para nele escrever o dito segredo da alquimia em letras e caracteres da minha imaginação, de que te dou a chave. Cuida, pois, de o manter secreto e não te esqueças nunca de, em silêncio, te recordares de mim, quando eu estiver no sudário, relembrando que, agora, te preparei tal documento, a fim de que te faças um grande mestre da alquimia filosofal, pois contribuí para meu prazer, desejo, consolo e fantasia conceder-te tal segredo.
Deste modo, faz como eu próprio fiz e faço ainda agora, sendo de avançada e decrépita idade e tudo em honra e mestria da alquimia, pela via da natureza.
Teoria de Flamel
Vou, pois, iniciar teu documento fazendo uma descrição clara e plena para que não confunda o teu entendimento, antes de dizer alguma coisas sobre a prática de operar. Quis conduzir-te, através da teoria do conhecimento, ao que é a alquimia, ou seja, a ciência de converter corpos metálicos em ouro e prata perfeitos, conferindo saúde aos corpos humanos e transformando rapidamente pedras e cristais em gemas verdadeiras e preciosas. Este conhecimento, e não existe outro semelhante, constitui-se como uma arte sem paralelo, quer dizer, Filosofal, através da qual se faz um corpo medicinal universal convertendo Saturno, Marte, Júpiter, Lua e Mercúrio em puro Sol claro, brilhante, límpido e da cor do próprio mineral, mas ainda melhor que qualquer ouro metalífero, e que congrega em si a virtude e o poder de curar todos os males, quaisquer que sejam, de fazer evoluir todos os vegetais antes do seu termo e de transformar todas as pedras em diamantes e rubis. Tal arte e mestria consegue-se pelo engenho da Natureza, pelo regime secreto do fogo adequado e pela industria do operador. Seguindo em tudo a razão natural do entendimento, pouco a pouco alcançarás tudo isto, desde que não te canses jamais de cozer com paciência, sem ansiedade.
Deste modo, para que a obra filosofal demonstre que é, sobretudo, o curso da natureza, como homem de entendimento deves visar duas intenções principais: a primeira, um entendimento correto, a compreensão das coisas que te direi. Porque eu, bem antes de trabalhar e iniciar o caminho devido, como homem de entendimento tinha já o senso da natureza do mercúrio, sol e lua, como disse no meu livro onde estão gravadas as figuras que verás nos arcos dos ossários. Mesmo assim, fiquei retido por mais de vinte e três anos e meio a manipular sem que conseguisse conjugar a lua, que é o azougue, com o sol e expurgar as escórias do sol e a lua seminal, um veneno mortífero para quem não conheça bem o agente ou meio de fortificar o Mercúrio, pois, sem este meio, é como água vulgar, não pode dissolver a lua, o sol ou, mais ainda, torna-se água liquefeita, fixando assim este mercúrio à aquosidade o que, mais tarde, à força de manipular e trabalhar, finalmente descobri nas quarta e quinta folhas do meu livro de Abraham.
Por este motivo, a segunda intenção é saber como se deve fortificar este mercúrio através do agente metalífero, sem o qual não é possível, de outro modo, alcançar o íntimo do sol e da lua, os quais, sendo duros, não podem ser abertos, a não ser pelo espírito sulfuroso do ouro de da lua. Assim, é mister que, a seguir, sejam juntos com o agente metalífero, a saber, a saturnina real e se liquefaça então o mercúrio pelo engenho filosofal a fim de que, depois, este dissolva em licor o sol ou a lua, retire a escória significativa da sua putrefação. Sabe que não existe outra forma nem mestria de trabalhar nesta arte além da que dou, palavra por palavra, cuja obra não é nada fácil de realizar e espinhosa de transmitir, se não for ensinada como te digo, pois Sol e Lua são corpos muito duros que não podem abrir-se totalmente com facilidade, exceto pelos espíritos mercuriais liquefeitos por vias e procedimentos filosofais. Tudo o resto é falaz e induz ao fracasso e ao embuste em que caí, para meu grande desgosto, durante muito tempo, Sem aquele procedimento, o mercúrio mantêm-se frio, hidrópico e terroso, sem força bastante nesse caso para cometer as vísceras dos dois corpos perfeitos Sol e Lua. Se o mercúrio não for previamente aquecido com o fogo sulfuroso metálico, a sua água branda fora do seu corpo e da terra rejeitada, fecal e negra, não passará de mercúrio vulgar. Nesse estado, penetrando nos seus ventres e eles no seu, tomam a vida astral, crescimento e vegetação, tornam-se vivos, tal como eram nas rochas dos minérios. Por este modo se faz a conjugação do sol, da lua e do mercúrio filosofais, não os vulgares. Mas como pode o mercúrio liquefazer-se assim? Pondera, em primeiro lugar, que nenhuma outra água, além do mercúrio, extrai o Enxofre do ventre dos metais, da mesma forma, que fora dele, no começo, no meio e no fim, ninguém pode abrir nem fazer nada de bom, porque é a virtude atrativa, feita ativa, que faz tudo e se engravida do enxofre, tal como o enxofre vive dele.
O que tu vês é agradável, água de vapor seco sulfuroso e vapor úmido mercurial volvem-se metais, porque, um e outro, se amam e desejam uma natureza conveniente a si próprios, ou seja, a natureza persegue a natureza, nunca de outra forma procedem o instrumento da Natureza, até mesmo na arte, porque um ama o seu companheiro assim como a fêmea atrai o macho a si, divertindo-o de quando em quando, o que vês muito claro e gracioso gravado na imagem da Quarta figura, onde observei o jovem mercúrio com o caduceu e as horríveis serpentes em torno da vara de ouro que ele segura na mão: porque, sem isto, não teria jamais conhecido o mercúrio hermético, que compomos pelo engenho e indústria filosofais do enxofre e mercúrio metálicos, na primeira preparação.
Toma cuidado, pois, em compreender as minhas palavras, escritas com sinceridade e de boa-fé em tua intenção, querido e amado sobrinho, a fim de que não falhes coisa alguma e rogue eu a Deus pela salvação da minha alma e use na via a equidade do nosso bom Deus, a quem suplico que, desde agora, te conceda saúde do corpo, entendimento, intenção, vontade judiciosa, retidão e lealdade de coração. Acredita firmemente que todo o engenho da indústria reside na preparação do mercúrio filosofal, já que nele está tudo o que pretendemos, o que sempre quiseram os antigos sábios e que nós, tal como eles, nada podemos fazer sem ele preparar, o sol e a lua, pois, fora dele nada existe em toda a esfera mundana que possa produzir a dita tintura filosofal e medicinal. O engenho natural está em que aprendamos a extrair dele a semente viva e espiritual encerrada nas suas vísceras e entranhas. Esta semente é a matéria tão louvada pelos sábios em seus escritos e livros, os quais afirmam, sem embuste nem falácia, que a matéria da tintura transmutativa dos metais em ouro é única só e dissolve verdadeiramente tudo, ainda que nada digam como prepará-la. Este jaz, pois, nestes três, unicamente, não em qualquer lugar, porque noutros corpos metálicos pouco tem de bom, está viciado e deteriorado, ao passo que, aqui, é puro, composto e autêntico.
Observa, então, a que ponto uma coisa não dá nada se nada possuir, por conseqüência, não vises senão ao sol e à lua, assim como ao mercúrio elaborado pelo engenho filosofal, delicadamente preparado, que não molha as mãos, e ainda o metal que tem em si a alma metálica sulfurosa, quer dizer, a luz ígnea e, para que não te desvies do recto caminho, procura os metais, porque ai está o referido enxofre, encerrado muito delicadamente na verdade, quase semelhante ao sol. Encontrá-lo-ás na cavernas e profundidades, as que são de ferro, de ouro e de bronze, quer dizer, o sol quase mais puro um que o outro, e se é descoberto, tal enxofre tem o poder de tingir a húmida e fria lua, que é a prata fina, em puro ouro amarelo e bom, mas é necessário que se prepare pela medicina espiritual, ou seja, a chave que descobre e abre todo o metal que te direi. Agora, reflete sobre que espécie de mineral é um ladrão que come tudo exceto o ouro e a lua, que torna bom este ladrão, pois quando os detém no seu ventre, então está apto para preparar o azougue, tal como te ensinei a seu tempo.
Prática
Não te afastes então, do resto do caminho e reporta-te às minhas outras explicações. Em seguida, trabalha na prática a que te vais entregar em nome do Pai, do Filho e do Santo Espírito, Adorável Trindade. Amén.
Procurarás, primeiro, tomar o primogênito de Saturno, que nada tem a ver com o vulgar, 9 partes, do sabre de aço do Deus guerreiro, 4 partes. Fá-los rubificar num cadinho. Quando estiver vermelho fundente lança 9 partes de Saturno dentro, como te disse. Este comerá rapidamente o outro: limpa muito bem as escorias fecais que sobem da Satúrnia com salitre e tártaro, por quatro ou cinco vezes. Estará bom quando vires um sinal astral sob o régulo, em forma de estrela.
Então, do ouro faz-se a chave e o cutelo que abre e corta todo o metal, sobretudo o sol, a lua e mercúrio, todos os quais come, devora e guarda no seu ventre. Terás feito entendimento correto e caminho frutuoso se trabalhas-te como é mister, porque este elemento saturnal é a erva real triunfante pois ela é a lua, pequeno rei imperfeito que promovemos ao grau da maior glória e honra e que é também a rainha, ou seja a lua e a mulher do sol.
Assim, é macho e fêmea, o nosso hermafrodita, que é o mercúrio e aquela obra em imagem da sétima folha e primeira dádiva do Judeu Abraham, a saber, duas serpentes em torno de uma vara de ouro, tal como verás neste livro que fiz eu mesmo consoante a minha fantasia, o melhor que pude figurar, para discernimento e como documento filosofal. Cuida, então, de conseguir bom fornecimento e provisão, porque é mister que obtenhas muita quantidade, 12 ou 13 libras, talvez mesmo mais, se quiseres trabalhar em muitas operações.
Casarás, então, o jovem mercúrio, ou seja, o azougue com aquele, o mercúrio filosofal saturnial, a fim de que, através dele, possas animar e fortificar o dito azougue corrente por 7, até mesmo 10 a 11 vezes com o supracitado agente, chamado chave ou sabre de aço afiado, para que corte eficazmente e penetre no corpo dos metais. Quando alcançares esta matéria, possuirás a água dupla ou tripla, pintada na imagem da Roseira do livro de Abraham o Judeu, a qual sai da base de um carvalho, ou seja, da nossa Satúrnia, que é a chave igual, e vai precipitar-se nos abismos, como o afirma o dito judeu, quer dizer, no receptor que está unido ao colo da retorta, aonde se vai lançar o referido mercúrio duplo, por arte e engenho dum fogo proporcionado e idôneo.
Mas aqui encontra-se um espinho angustioso, impossível mesmo com que trabalhar se Deus não revela o referido segredo ou o mestre não o transmita, porque o mercúrio não se conjuga com a Satúrnia régia sem uma coisa que está oculta no correto engenho de examinar como se faz e labora, porque se não conheces como se faz a bravura e a paz do citado azougue, nada encontrarás que valha. Assim, caro e amado sobrinho, como não pretendo esconder-te nada, antes dizer-te tudo sem nada guardar e mostrar-te como deves descobrir corretamente, passo a passo, o que é mister nesta maestria filosofal, dir-te-ei que, sem sol e a lua, não te será proveitosa a dita obra. Farás, pois, comer aqueles pelo nosso ancião ou lobo voraz, o ouro ou a prata, como te direi. Presta toda a atenção às minhas explicações para que não erres e falhes coisa alguma, como me aconteceu nesta tarefa. Como se deve, então, dar a comer o ouro ao nosso velho dragão? Reflete direito, com bom senso, porque se dás pouco ouro à Satúrnia fundida, resulta muito bem aberta, mas o azougue não tomará vida; eis uma coisa incongruente que não será útil, em que trabalhei muito, cheio de tristeza, antes de encontrar a correta maneira de o fazer. Assim, se lhe dás a devorar muito ouro, não ficará tão aberta e disposta, mas absorverá logo o azougue e se conjugarão ambos em pasta. Faz como viste fazer. Nota que é preciso manipular em tudo conforme os pesos de que falo, pois sem isso não trabalharás em teu proveito, mas em teu detrimento, recorda-te disto. Eis o procedimento encontrado. Guarda, pois este segredo, porque nele está tudo e não o escrevi jamais sobre papel, nem qualquer outra coisa que se possa ver escrita, porque seriamos causa de dano para o universo profano. Ora, o que transmito é sob o sigilo rígido do segredo da consciência, pelo amor que te dedico.
Toma X partes de ouro fino, limpo e purgado 9, 10 a 11 vezes unicamente pelo lobo voraz e, em seguida 11 partes de Satúrnia real, e funde-os num cadinho. Quando estiver em fusão, lança dentro X de ouro fino, funde os dois e revolve com carvão ardente. Teu ouro reagirá um pouco. Deita-os num mármore, moído em pó com 12 de azougue. Fá-los ficar como manteiga ou queijo, moendo e agitando um e outro, aqui e ali, de quando em quando, lavando com água limpa vulgar, até que a água saia clara e a massa pareça clara e branca (farás assim com a lua fundida). Está feita a sua conjugação com a Satúrnia real solar. Logo que fique como manteiga, tomarás a massa, que secarás lentamente com um pano ou tecido fino, com muita arte. Eis o nossos chumbo e a nossa massa do ouro e da lua, não vulgares, mas filosóficos. Coloca-os, agora, numa boa retorta de barro refratário, preferível de aço, depois num forno, e dá-lhe fogo, aquecendo pouco a pouco. Acopla um receptor adequado na retorta durante duas horas e aviva, depois, o teu fogo tanto, que o mercúrio passe para o receptor. Este é o mercúrio ou água da roseira florescente, o sangue dos inocentes, pois é a água do ouro e da lua filosofais. Podes crer que aquele mercúrio devorou um pouco do corpo do Rei e poderá dissolver com muito mais poder o outro, que será, mais adiante, muito mais aberto pelo corpo da Satúrnia.
Terás, assim, subido um degrau ou escalão na escada da arte. Toma já as fezes da retorta, funde-as no cadinho a fogo forte, extraindo todo o fumo saturnino, e quando o ouro em fusão estiver limpo, infunde dentro, como da primeira vez, dois de Satúrnia. O sol IX infuso nas ditas fezes é muito mais aberto que da primeira vez, e como o mercúrio está agora mais ácido que antes, terá adquirido muito mais força e vigor para escrutar e, por assim dizer, de devorá-lo e encher e seu ventre pouco a pouco. Tem em atenção, caro sobrinho, os graus do engenho da Natureza e da Razão, para que subas por escalões ao mais elevado nível da Filosofia, que é, sobretudo, o curso da Natureza e que jamais encontrarias se não te transmitisse esta maestria. Bendiz o Senhor pelo que me concedeu para te confiar, porque sem isto de nada te serviria trabalhar, como alguns e fazem com prejuízo de muito pecúlio, infinitas penas e trabalhos, vigílias ansiosas e deprimentes preocupações. Faz, então, como das primeiras vezes, casa com o mercúrio saído, já citado, robusto em graduação, pulverizando e pilando, para que extraia toda a negrura, e seca como te disse. Mete tudo na referida retorta e faz como tens vindo a fazer, durante duas horas a fogo lento e adequado, depois forte e bom, para forçar o mercúrio a sair para o receptor. Terás o mercúrio muito mais liquefeito e alcançarás nesta altura o segundo degrau da escala filosófica.
Continua a trabalhar como tens vindo a fazer, lançando o filho saturnino em peso conveniente, pouco a pouco, manipulando com discernimento, nem de mais nem de menos, como fizeste no começo, até que alcances o décimo degrau da escada. Repousa, então. Possuis já o dito mercúrio ígneo liquefeito completamente emprenhado e carregado de enxofre macho e do vigor do sal astral que provém das mais profundas cavernas e vísceras do ouro e do nosso dragão saturnino. Acredita que te escrevo coisas que nenhum Filósofo jamais disse ou escreveu. É o maravilhoso caduceu sobre que discorrem todos os sábios nos seus livros, afirmando que ele tem o poder, só por si, de realizar toda a obra filosofal. Suas afirmações são verdadeiras, como eu mesmo descobri sozinho ao trabalhar com este mercúrio, tal como poderás conseguir, se tiveres isto em mente, pois que este, e não outro, constitui a natureza próxima e a raiz de todo o metal. Trata de possuir este mercúrio, e não outro licor, como cuidam alguns néscios e loucos que não refletem que estes metais são feitos do licor que o referido mercúrio reduz, dissolvendo em licor o sol e a lua, a fim de preparar natural e simplesmente a tintura filosofal ou o pó de projeção, capaz de transmutar todos os metais em sol e lua, que alguns julgam, satisfeitos, terem alcançado, quando possuem este mercúrio, celestial apropriado, mas falham muitíssimo nisto, enfrentando desgostos antes de colher a rosa, por falta de entendimento.
É bem verdade que se eles conhecessem as proporções e o regime do fogo corretamente, não teriam de se esforçar muito e não poderiam errar, ainda que o quisessem, mas nesta arte é assim o modo de trabalhar. Escuta e procura fazer como te ensino. Em nome de Deus tomarás, então, do teu mercúrio animado 2 ou 4 partes como quiseres, colocá-las-ás num matrás obtuso sós ou com dois de Satúrnia solar, sendo uma de ouro e duas de Satúrnia, tudo amalgamado como manteiga, com cuidado e destreza, lava, limpa e seca. Cerra por cima com boa cera, ou seja, o luto da sapiência. Coloca esta confecção como a galinha choca os seus ovos. Deixa o mercúrio assim preparado seguir o seu curso por alguns dias, isto é, a saber durante 40 ou 50 dias até que vejas formar-se no vaso um enxofre branco ou vermelho de sublimado filosofal, o qual sai dos raios do dito mercúrio. Colhe-os com uma pluma, porque são o ouro e a prata vivos que o mercúrio da à luz, para fora de si.
Giro de Roda
Toma agora estes enxofres brancos ou vermelhos, tritura em almofariz de vidro ou de mármore, umedecendo-os com a terça parte do seu peso do mercúrio, donde foi extraído por sublimação, tendo o enxofre saído da putrefação daquele. Faz de ambos uma pasta semelhante à manteiga, remete esta mistura num matrás cerrado ao forno, com fogo adequado e suave de cinzas, conforme o entendimento filosofal, coze até que o mercúrio se tenha transformado em enxofre. Durante a cozedura observarás coisas surpreendentes no teu vaso, tais como todas as cores do mundo, o que não poderás admirar sem elevar o teu coração a Deus, em ação de graças a tão elevado dom.
Quando chegares ao vermelho púrpura, colhê-lo-ás, pois está elaborado o pó alquímico capaz de transmutar qualquer metal em ouro fino, puro e límpido, que poderás multiplicar, umedecendo-o, assim como fizeste, pulverizando com novo mercúrio, cozendo no mesmo vaso, mesmo forno e mesmo fogo. Operação muito mais curta, contudo, sua força terá dez vezes mais poder. Eis a plena maestria com o único mercúrio, que alguns não acreditam ser verdadeiro porque são surdos e imbecis, incapazes de produzir tal obra.
Se desejas trabalhar por outra via, toma ouro fino, três partes em pó ou em folhas muito bem laminadas, prepara uma pasta com 7 partes do teu mercúrio filosofal, a nossa lua. Coloca isto num matrás oval ao forno, muito bem lutado, e aplica fogo muito forte, assim como se mantêm para o fogo de fusão do chumbo sem assentar ou coagular, porque logo se encontra o modo correto de regular o regime do fogo, e o teu mercúrio, que é vento filosofal, sobe e desce sobre o corpo do ouro, que devora pouco a pouco e que transporta em seu ventre.
Coze tanto que o ouro e o mercúrio não subam e desçam mais e se mantenham ambos copulados e esteja consumada a paz e o acordo entre os dois dragões, que são fogo e água unidos. Agora, terás em teu vaso um aspecto negro, assim como pez dissolvido, a marca da morte. A putrefação do ouro é a chave de toda a maestria. Ressuscita-o e regenera-o, cozendo-o durante 40 dias, não te enganes, logo aparecerão mutações diversas, tais como a cor negra, cinzenta, verde, branca, alaranjada e, por fim, um vermelho como sangue ou de papoila carmesim. Não te preocupes senão com esta última, porque ela, com ela, o verdadeiro enxofre chegou ao fim e possuis o pó alquímico. Não te referirei o momento justo, pois isto dura em função da habilidade de trabalhar, contudo, não poderás falhar se fizeres o que te ensino.
Multiplicação
Se desejas multiplicar a pedra, ouve. Toma uma parte dela, multiplica-a com duas partes do teu mercúrio animado, coze como fizeste nos matrases após teres feito deste uma pasta mole e macia, no mesmo forno e no mesmo fogo. Em muito menos tempo estará realizado o segundo termo da roda filosofal e o pó adquire dez vezes mais poder do que no seu primeiro nascimento. Procura dar-lhe mais uma volta ou mesmo mais, se quiseres, e terás concluído o tesouro sem preço, o melhor que existe no mundo inteiro, além do qual não podes aspirar mais. Possuirás saúde riquezas se o usares como deves. Terás o tesouro que concede toda a felicidade mundana e que eu, pobre rural nativo de Pontoise, fiz e realizei por três vezes na minha casa da rua dos Escrivains, muito perto da capela de St-Jacques-de-la-Boucherie e que eu, Nicolau Flamel, te concedo pelo amor que te dedico e em honra de Deus, para sua Glória e louvor do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a sagrada Trindade, a quem rogo que, a partir deste momento, te ilumine e conduza no caminho da verdade, da luz e via da salvação. Assim seja.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
não ouvi...